3.19.2020

ISOLAMENTO





Meu isolamento começou terça passada quando retornei da clínica com pontos dentro da minha boca após uma complexa cirurgia de siso. Durante esses dias sem poder sair de casa, sem poder mastigar, fazer atividade física e dormir deitada, eu refleti muito sobre o que realmente é importante na minha vida. Recebi apoio de alguns amigos mesmo distantes, porque quem me conhece sabe que não aceito visita estando doente. Eu tenho uma personalidade estranha. Apenas, respeitem. Agora que minha cirurgia está quase inteiramente cicatrizada, que eu posso mastigar e retornar aos poucos para minhas atividades, eu não posso sair de casa.
No entanto, não é a limitação de ir e vir que me apavora. É a consciência do privilégio que eu tenho de poder ficar em casa lendo, desenhando, escrevendo, ouvindo música e a segurança de que no início do próximo mês meu salário estará na conta. Enquanto isso, observo o silêncio das ruas e penso na minha mãe e nas minhas irmãs que são costureiras (ninguém compra roupa numa crise dessas), no meu namorado e na minha cunhada que não foram dispensados dos seus trabalhos (porque os supermercados não podem fechar!), nas minhas amigas donas de salão de beleza (Quem vai se arrumar pra ficar em casa?), nas minhas professoras de dança se desdobrando para criar conteúdo online, assim como meu instrutor de yoga e meu orientador de mestrado.
Penso também em quem eu não conheço, mas sei que necessita de gente na rua para vender suas mercadorias, penso nas alunas que trabalham em lojinhas, nos alunos que fazem bicos para ajudar os pais, nas diaristas e babás que se arriscam cuidando dos filhos dos ricos que estão retornando para o Brasil. Eu penso nos mendigos sem gente na rua para pedir ajuda pra comer. Penso nos rapazes que trabalham no ifood, nas prostitutas, nas crianças que estão nascendo assustadas e nas crianças que estão morrendo sem ter consciência do que viveram.
Eu comecei falando de mim, mas agora estou olhando para a minha janela e vendo o quanto esse mundo é grande, assim como o egoísmo de quem estocou álcool em gel e comida como se tivesse em tempos de guerra. Sim, estamos em tempos de guerra. Não contra o corona vírus, esse cruel soldado que ataca com crueldade, adoece os fortes e mata os mais fracos. Estamos em guerra contra o egocentrismo e a vaidade que está destruindo a humanidade pouco a pouco.
Acostumamos a olhar nosso reflexo na câmera do celular e tirar várias selfs para escolher aquela que melhor esconde nossos defeitos. Enquanto isso, há um mundo a nossa volta e nosso celular não capta porque está voltado para nós mesmos. Se queremos sobreviver a essa guerra, temos que retirar o modo self e pensar em todos os outros. Eu preciso do outro para me enxergar como ser humano criado a imagem de Deus. Não foi isso que aprenderam? Se somos a imagem do que é perfeito, porque agimos com tanto individualismo? Até onde eu sei, Jesus era um pacifista, um idealizador. Ele dividiria o álcool em gel, o pão e as palavras. Não estamos vivendo segundo o modelo dEle, estamos vivendo conforme nossa vontade. Enquanto isso, os idosos estão chorando se sentindo ainda mais sozinhos e continuamos olhando para o nosso frio reflexo na tela opaca do celular.


                                                                                                                              Luciana Braga

1.03.2020

O QUE FOI FEITO DE NÓS DOIS?






Eu já não ouço a tua voz
Não vejo as pedras que enfeitam teu pescoço
Não sinto teu abraço a me envolver
Busco em volta e não sei mais o que ouço.

Eu já não leio tuas palavras
Não guardo teus segredos
Não acordo de madrugada ouvindo teus sonhos
Teus medos, loucuras e anseios.

Eu já não sinto o teu perfume
Não toco na tua alva pele
Já não sei em que se resume essa história censurada
Não sei de ti, de mim, de nós, de mais nada.

Luciana Braga

7.01.2019

CIBERREALIDADE





Quando nossos olhos se cruzam, um precipício se abre entre nós. Pergunto qual o teu maior desejo e você foge por medo de cair na minha imensidão. Não é armadilha, mas eu nem sei o que é. Desculpa se eu perdi a fé e já não sonho com a doce e contagiante felicidade. É que eu já senti demais, sofri demais e agora estou sangrando aos poucos. Diga-me que você sabe como é que se faz o antídoto para a dor da existência. Explica-me qual a maior consequência de arriscar tudo o que temos por um desejo. Mostra-me o que eu não vejo. Leva-me para onde eu não sei. Diz palavras que eu desconheço. Segura-me ou eu desfaleço e acordo sem saber quem eu sou.
Quando nossas mãos se tocam, minha pressão vira polo-norte. Eu não tenho a sorte de fingir ser outra persona. Estou fadada a caminhar como aprendi, a me vestir como posso, a beijar quem eu não escolhi. Amor não se escolhe, sabia? Ele vem e nos arrebata. Ele nos fere e nos mata, ou nos deixa com a agonia da insatisfação. Amor é filho da ingratidão. Dizem que ele tudo suporta, mas isso é besteira. Ele bate a porta na nossa cara, ele é dor verdadeira. Ele rouba tudo o que temos de melhor. Não sei porque nos acostumamos a tratá-lo como ovelhinha inocente. Amor é duro, cruel, amor acaba com a gente.
Quando nosso corpo se enlaça, eu sei que não poderei suportar. Eu fujo para não me ligar. Eu me escondo porque só sei ser sozinha. Eu tenho medo de precisar de ti para sentir. Eu sou eu e eu sonho que me basto. A realidade difere do que penso, mas eu escolho a fantasia. Lá eu me enlaço com a rebeldia. Lá eu sou ele, ela, eu só nós. Lá não há limites para gritar. Eu posso me virar sem medo de escorregar. É só em sonho que eu posso te amar. No mundo real não há espaço para o improvável. Não há espaço para o politicamente incorreto, para o indigesto, para o incesto, para o complexo universo do que nem sei explicar. Só sei que na ciberrealidade existe uma diminuição do que me julga e eu posso ser quem sou sem julgamentos, sem pensamentos, sem complementos. Nada lá me falta. Tudo é mais bonito por isso quero fechar os olhos e tocar o infinito. Apenas deixe-me ir, deixe-me ou venha comigo.

Luciana Braga

4.30.2019

UM VOO COM O PASSADO






Era um sábado ensolarado e o meu voo estava atrasado como de costume ou era eu que tinha chegado cedo demais. Eu corria com a mala que não quisera despachar. Odeio essas burocracias de aeroporto, mas parece que isso acalma os responsáveis, então danço conforme a música. Estava tudo tão tediosamente igual, a não ser pelo fato de que nenhum parente viera se despedir de mim dessa vez. Trabalhos são mesmo tediosos e por mais que a gente queira se desprender deles de vez em quando, eles nos prendem como um inseto em uma teia de aranha. Não adianta se debater. Cedo ou tarde, ela nos devora e fim.
Eu estava procurando o fone de ouvido para me desprender dessa realidade e fugir para o universo projetado por Florence and the Machine. Foi então que ouvi uma voz grave que a tempos não ouvia. Fingi que não era nada, fingi que não sentia um palpitar diferente. Ele se aproximou como quem acabara de ganhar a loteria: eufórico. Nosso abraço durou mais do que o politicamente correto. Não existe tempo programado para a saudade. Eu apenas me deixei levar. Comecei a me importar com o fato de não ter me arrumado, de não ter me penteado, de não ter colocado a máscara da beleza matutina, se ela que ela ainda existe. Eu me prendi a detalhes enquanto ele apenas sorria. Eu não lembro o que ele vestia, mas imagino o que ele sentia porque de repente comecei a senti o mesmo.
Fomos jogados para o passado de nossas viagens juntos. A gente ria de banalidades, corria contra o tempo e simplesmente falávamos de tudo, mesmo não tendo muito em comum. Às vezes, tudo o que precisamos é de alguém que nos escute e se essa pessoa nos olha com olhos de apaixonado, melhora o fato de compartilharmos tanto sem conhecer quase nada sobre o outro. A vida tem dessas coisas. Aproxima sem perceber. Diz que é sem dizer. Une mantendo separado. A vida ou o amor nos deixa em um estado de anestesia momentânea. Eu estava em pânico e agradecia o fato de não ter esquecido meus óculos escuros. É que meus olhos me denunciariam e diriam que eu senti saudade.
Eu não gosto de dizer tudo. Eu sou adepta do silêncio. Eu prefiro iniciar um jogo em que lanço segredos, charadas, cartas marcadas no meu baralho pessoal. Eu gosto de metáforas. Nunca fui boa em dizer com clareza o que se passava na minha cabeça. Então eu uso a linguagem difícil que aprendi na faculdade e que aos poucos nem eu mesma sem como se escreve. Eu não sei como é que se deve reagir quando o passado nos pergunta como estamos. Será que eu deveria dizer que estou bem? Mas não estou definitivamente. Será que eu deveria confessar meus medos? Mas nem eu mesma os entendo. Será que eu deveria apenas sorrir? Mas e se ele continuasse perguntando? E se eu saísse correndo e ele viesse sentar ao meu lado? Eu não sei quem é o culpado. Tudo o que sei é que um dia ele me confessou seu amor e eu falei sobre o impossível.
Não entendo o que faz a gente amar nesse mundo. Qual é o desejo profundo que esse deus tem de nos fazer reviver nossas fraquezas sempre que desejamos abrir o coração? Assistindo série médica, aprendi que isso tudo é exagero da linguagem. Esse órgão é apenas uma bomba relógio, mas eu gosto do efeito que ele criou dentro de mim, mesmo sem poder. Eu gosto de ouvir um “eu amo você”, mesmo quando não estou preparada para dizer de volta. Será que sou egoísta a esse ponto? Será que não há um contraponto nisso tudo. Ele se abre e eu fecho as janelas que iluminavam sua vida, mas ele continua ali sentado esperando. Por que o mundo continua mudando e algumas pessoas insistem em manter um sentimento sem sentido vivo dentro delas? O que as faz viver assim? Eu também já fiz isso e terminei com o peito sangrando. Eu sei que estou divagando, mas ele me disse coisas maravilhosas que eu nunca pude esquecer.
Nosso voo era o mesmo e eu não queria chegar a lugar nenhum, mas ele precisava me ouvir. Sua voz ainda era a mesma. Os obstáculos estavam mais fortes do que nunca, mas por que diabos ele não parava de sorrir? Que efeito doido é esse que causamos nas pessoas que as deixa assim feito herói sem escudo? Eu quero gritar para ele descer desse avião e pegar um trem. Quero dizer a ele que nem sempre o meio mais rápido é o mais seguro. Eu quero pedir para ele prestar atenção à todas as estações da vida dele. Eu quero dizer tanto e não digo nada porque ele não para de dar risada e me puxar pela mão para um passado em que mãos dadas era tudo o que ele poderia ter nesse mundo. Eu queria ter dito bem lá no fundo, mas tudo o que saiu foi um até breve. É que não sei se a gente deve partir um coração mais de uma vez sabendo que ainda vive dentro dele.

Luciana Braga


3.11.2019

DIGA-ME, GAROTO







Diga-me, garoto, você é realmente feliz dentro do laboratório que você mesmo criou? Os animais que te cercam ainda substituem as pessoas? Como é que você passa tanto tempo sem ver o sol? Diga-me como você consegue prender a respiração e não morrer? Existe algum mistério dentro de você? Existe alguma lógica nessa sua louca ciência? Eu já tentei entender, mas sempre volto para a origem de tudo.
Diga-me, garoto, você ainda é capaz de lembrar a primeira vez que nos vimos? Os pesadelos ainda atormentam as tuas noites e te deixam em claro escrevendo mensagens que nunca terá coragem de enviar? Ainda sobra tempo para você gritar com o mundo, consigo, com tudo o que ainda te atormenta? Ainda existe aquela vontade violenta de largar tudo e fugir para onde ninguém vai nos encontrar? Eu ainda sou o seu lar? Eu só queria saber, porque sempre que eu me pergunto, volto para onde tudo começou.
Diga-me, garoto, alguém além de mim te prometeu amor para toda a vida? Alguém já foi capaz de curar as suas feridas? Diga-me se ainda pensa em chegar de repente no meu apartamento? Diz se ainda é meu todo o teu pensamento. Existe algum sentido em toda a nossa história? É certa ou errada essa nossa trajetória? Eu já revi todas as nossas noites em claro pensando em uma solução e não encontrei.
Diga-me, garoto, por que é que a gente sempre volta para o começo e não dá um passo adiante? Diga-me porque de repente fica esquisito e nada volta a ser como antes? Diga-me porque tua respiração ainda me causa calafrios? Diga-me se toda vida é tão cheia de desafios. Eu quero entender. Abra-se mais, quero enxergar você. A noite é escura e os sonhos são tão raros...
Diga-me, garoto, seu cabelo ainda cresce como uma planta sem direção? Eu ainda sou seu sentido, sua luz, sua razão? É que eu me sinto tão perdida e tão sozinha. Eu sei que a solidão é de origem minha, mas tem momentos que eu preciso ouvir a sua voz. Preciso sentir seus lábios juntos aos meus. Preciso ver o paraíso que você prometeu, mas não vejo nada. Não vejo nada meu nem seu.
O que me resta é o toque suave na sua face. O que me resta é seu perfume inundando minha madrugada. Resta-me tudo e não sobrou nada. Eu queria o mundo e fiquei com um jardim sem flores. Ele me levou a esperança como quem leva o recém- nascido de uma mãe apaixonada. Eu sonho com você quando durmo e mesmo acordada.

Luciana Braga

1.24.2019

A DIFÍCIL VIDA DE ROSA




Não, não me diga que as flores são eternas
Toda beleza se encerra e cede lugar a algo mais importante
Não, depois da morte, nada é como antes
O sorriso diminui e você se pega falando nele sem perceber
Parece que a morte chega cedo e nem dá tempo de florescer
Tudo o que tivemos é tão pouco comparado a imensidão dos meus desejos
A rosa em minhas mãos e a saudade dos beijos...
Ela já foi campo florido e hoje vive aprisionada entre as páginas do meu livro.
Que amor é esse que não deixa se balançar com o vento nem se molhar com o mar?
Que amor é esse que não deixa você se arrumar para o mundo que te julga?
Nascer rosa é tão difícil...
Muitos juram que em um copo cheio de água teremos tudo
Não basta!
Eu vou morrer do mesmo jeito
É que sinto uma dor danada no meu peito e nunca te falei porque não vi espaço.
Nascer rosa é ter medo de soltarem os laços
Viver sozinha é imensidão
Tiraram meus espinhos e eu nem percebi
É que estou acostumada a sangrar demais
Grito mudo todo dia dentro do quarto
Eu me contorço
Eu me mordo
Eu me firo
Eu me mato
Queria ter nascido girassol que só se abre para aquele que o ilumina.
Nascer rosa é nascer em pele de menina
Sentem nosso cheiro e nos trocam quando o perfume enfraquece
Algumas rosas enlouquecem
Eu mesma já estou doidinha
Queria mesmo era ser só minha e não arranjo de outras vidas incompletas.

Luciana Braga

1.08.2019

O MEU EU NÃO CABE NO VESTIDO






O convite chegou às minhas mãos escrito em letras garrafais. Eu recebera um lugar de honra na festa. Um lugar que eu sabia que merecia, mas jurava que haviam esquecido. As pessoas esquecem tanto... Abraços são apagados, laços desfeitos... E os beijos? Os beijos se perdem na escuridão das bocas que um dia se juntaram. Eu já estava acostumada a não ter tanto. Eles nem se manifestavam. Não mandavam cartas, e-mails, não deixaram por escrito o quanto me amavam. Às vezes, a gente precisa disso, sabe... Precisa ler para acreditar. O homem que eu amo me disse ontem antes de eu dormir que eu era bonita e que ele me amava. Pedi que repetisse. Pedi que repetisse. Pedi tanto que ele dormiu e eu fiquei no anseio de ouvir mais. É que tem dias que eu simplesmente não sou capaz de saber. E eu preciso entender que sou além do que o espelho me mostra.
Ontem eu saíra de casa tão decidida. Ia provar um vestido de festa. Ia me sentir igual a Cinderela. Ia Ser. Não fui. Fiquei sentada no banco negro do carro alugado sentindo-me inútil. Sei que dirão que é futilidade de mulher querer caber em um vestido e se sentir bela, mas quem pensa assim simplesmente não entende as lutas que passamos todos os dias. O noticiário já noticiou o corpo perfeito, as revistas, os jornais, os sites de moda, os amigos, os pais. Todos estão juntos para te dizer que teu corpo não cabe no vestido. As curvas são bonitas nas montanhas, mas elas não cabem no vestido. O ventre que te guardou por nove infinitos meses também não cabe no vestido. Tua bunda elogiada por tantos e fruto de inveja de algumas não cabe nele também. Não cabe nada que você tem! A mim me parece que no vestido só cabem os ossos de um corpo morto que cansou de caber e se foi para um mundo sem medidas.
Cansei de ir de loja em loja e  ouvir da moça incrivelmente magra que “aquele vestido não é para você”, “tente um número maior”, “o que acha de um preto, preto disfarça, não?”. É que às vezes, eu quero a cor do céu em mim. É que às vezes minhas amigas magras sofrem também e vocês oferecem o “branco que engorda”  e tudo o que elas queriam era o básico da noite, mas vocês disseram que elas ficam “escorridinhas”. Pasmem, elas também sofrem. Eu sei que todas sofrem. Eu sei que todas sentem. Eu sei que todas ressentem de não ter o corpo que se adapta a qualquer vestido sonhado. Eu sei que todo corpo já se sentiu humilhado. Mas é que tem dia que eu queria mesmo era sair nua feito louca gritando “meu corpo não me defiiiiine”. Que Deus nos redima porque eu já nem sei para onde ir.
Desisti de ouvir negativas. Eu só queria a mágica da fada madrinha em mim. Que ela transforme minhas frustrações, minhas inseguranças, minhas desconfianças dos elogios de quem vê beleza em mim. Que ela me transforme assim num passe de pura magia. Que ela me devolva a alegria, porque ontem eu dormi chorando. Não é só um vestido, é o mundo todo te recriminando e dizendo que a culpa é tua. Comer então parece crime, mas é tão bom. Todo pecado dá prazer e eu quero sentir. Eu quero sentir. Eu quero evoluir as mentes alheias, mas ainda não entendi a minha. Eu não quero morrer sozinha. Eu só quero olhar para o espelho e não enxergar meus olhos tristes.
Eu sei... É um percurso lento. Agora eu quero apagar cada pensamento de negatividade que havia em mim. Meu corpo é morada do meu Eu. E tenho sido tão indelicada com ele. Não falo de exercícios que não fiz porque prefiro ler tomando chocolate quente. Não estou me referindo a cortes severos na pele cujo sangue já nem goteja mais. Eu falo das palavras que disse tantas vezes que o deixaram sem brilho. Meu corpo já nem sente aquele arrepio. É que eu repeti para ele que ele tá fora de tudo o que o mundo chama de “perfeito”. Ele chorou do seu jeito e disse que nunca mais caberia em vestido algum.
Vestidos são amarras que a sociedade gruda no nosso corpo feito cola super bonder que parece que não sai nunca mais. Contudo, eu juro que sou capaz. Sou capaz de sair sem me diminuir. Sou capaz de pegar todos os modelos de vestidos e cores e dizer para eles e para as vendedoras que de agora em diante vestirei o que eu quiser. Não importa se tiver uma fenda enorme na perna desde que haja um sorriso estampado em meu rosto para combinar. Quem disse que gordas nasceram para usar decotes...E se eu não quiser mostrar? O corpo é meu e eu estou no comando. Uso preto, vermelho, azul, rosa e branco. As cores são parte da minha palheta pessoal. Sou eu que as manipulo.
Hoje eu dei um pulo da cama e me olhei sorrindo ao espelho. O corpo acostumado a ouvir que é um pesadelo se assustou. Eu sorri de novo e ele se espreguiçou. Dei gargalhadas e ele se endireitou. Eu consegui me ver direito. Meninas, não existe corpo perfeeeeito. Existe o meu, o teu, o nosso corpo pedindo um sorriso diário. Mas e se o próximo vestido também não couber? Irá perder a fé?
 Então, eu me vestirei de flores e sairei para dançar.

Luciana Braga

10.17.2018

NÃO SILENCIE



Ela estava caminhando de mãos dadas. Tinha que apertar bem forte as mãos dele, porque ela sabia que tudo estava quase perdido. Democracia era só uma palavra bonita usada há muito tempo atrás. Ela estava caminhando de mãos dadas, apreensiva. Tudo havia chegado longe demais.
Ele havia dito para ela não discutir, para não encher suas redes sociais de postagens em nome da educação que agora era substituída pelo mito. Ele não entendia que essa atitude significaria calar um grito que precisava ecoar até Deus ouvi-la e dizer que ela estava certa. Dizer que o povo não escuta mais a voz do poeta, mas ele ainda faz versos cheios de lágrimas e sangue porque não é capaz de pegar em uma arma. Ele não entendia que sofrer para ela sempre foi sua sina, seu grande carma. Mas ela sofreria mais se não pudesse defender o que ela acreditava.
Céus, como ela o amava! O mundo estava desabando ao seu redor e ela apertava as mãos dele para ele não se sentir só enquanto o sangue escorria pelo seu peito. Ele era negro. A História diz que não tem jeito. O pobre luta e continua sem um pedaço de pão. A mulher luta pelo respeito, pela razão. O gay luta para sair do armário sem se sentir em uma grade ainda maior. O judeu luta para não se sentir só. A gente grita até desatar o nó.
Ela era pranto e ele era tanto, mas agora parecia tão pequenino diante daquele mar vermelho. Os culpados correram e gritaram que eram deles o mundo inteiro. Ela ficou com seu amor afogado em um rio de morte. Antes todos diziam que a união deles era uma grande sorte. Mas o mundo está perdido; endureceram os corações. O mundo está perdido! É o ódio que está vencendo as eleições.
O mundo está perdido e uma mulher chora a morte de quem ama sem poder fazer nada! O mundo está perdido e alguns pensam que é momento de dar risada! O mundo está perdido e quem diria que estaríamos lutando para as pessoas verem que é com amor que se educa. O mundo está perdido ou sou eu que estou ficando maluca?
Ela viu seu amor indo embora enquanto o abraçava na praça que um dia se conheceram. Ele nem teve tempo de dizer que a amava. O tempo é privilégio dos que venceram. Ela chora e se sente impotente porque se há algo sem solução é a chegada da morte. Ela chora porque fez tudo o que ele disse para ela não fazer e agora ele encontra esse caminho sem sorte. Ela chora mesmo depois de os paramédicos o ressuscitarem e dizerem que vai ficar tudo bem.
Ela chora porque passou tempo demais acreditando no poder da esperança. Chora porque se sente criança outra vez, mas quando ele abre os olhos, ela entende.
Por mais injusto que seja o golpe. Por mais unidos que estejam os opressores, ainda há chance, senhores. Os paramédicos estavam de branco e agora estão cobertos de vermelho. Ela entende que seu amor irá se curar e eles lutarão mais uma vez juntos. Ela entende que tudo fica bem, mesmo se a gente cansa de acreditar. O mundo dá um jeito de se ajeitar. O mundo dá um jeito de se ajeitar.
Mas se não fosse o grito dela acordando os moradores. Todos continuariam na comodidade de seus lares e seu amor morreria ali mesmo sem assistência. Se não fossem os homens de branco. Se não fosse a luta, a paciência. Seria sim, tarde demais. Então grite, grite o mais alto que for capaz.

                                                                                             Luciana Braga

                                

10.08.2018

O QUE VEJO ME ASSUSTA





Já vi tanta gente chorando hoje por falta de amor, falta de apoio e de compreensão.
Já vi tanta gente brigando por medo de admitir que estava errado, que o outro tinha razão.
Já vi tanta gente levantando bandeira de paz, enquanto outros levavam um rifle na mão.
Já vi tanta gente humilde, nordestina, brasileira, sendo fruto de humilhação.

Mas o que eu queria ver de verdade era um debate saudável cheio de amor e união.
O que eu queria ouvir de verdade era que os brancos, nulos, indecisos resolveram dar a mão.
Não se trata de ser petista ou cirista, nordestino ou magnata ou de se achar um bom cristão.
Trata é de colocar a mão na consciência e ver tudo o que conquistou com orgulho no coração.

Já vi tanta gente sofrendo por falta de estudo, por falta de uma mãe, por falta de respeito.
Já vi tanta “fraquejada” forte lutando para que seus filhos tivessem um pouco mais de direito.
Já vi tanta gente calada achando que silenciar irá apagar essa dor que nos maltrata.
Já ouvi muito discurso de ódio, mas hoje eu grito mais alto, não voto em quem diz para quem amo: mata!

Sei que minhas palavras podem parecer folhas caídas e levadas pelo vento.
Sei que dirão que me deixei levar pela emoção, pelo calor do momento.
Mas, eu sonho com um país livre de preconceito, livre de guerras e de armamento.
Eu sonho com um país que saiba discernir o que é mais que um movimento.

Sonho com um país que não fique sentado enquanto os outros começam a se matar.
Sonho com um país que não precise se dividir para aprender a ter esperança.
Sonho com um país que saiba diferenciar discurso de ódio de discurso de mudança.
Sonho com redes sociais que aproximam ao invés de aumentar a nossa distância.

Luciana Braga