Eu o vi assim que entrei naquele
ônibus. Cabelo claro, pele alva, óculos escuros, lábios rosados. Nas mãos uma
bengala que me fez concluir de imediato que era cego. Eu me sentei ao seu lado
e o fato de ele não ter um celular em suas mãos ou de não estar se perdendo
entre as paisagens da janela me deixou insegura.
Eu não estava sozinha; então
ignorava aquela presença estranha ao meu lado e conversava animadamente com
minha aluna, mas ela desceu e eu fiquei sozinha com aquele rapaz quieto e
observador.
Eu sempre reclamei da
incapacidade dos homens em me olhar nos olhos. É como se eles tivessem medo de
serem pegues em flagrante. É como se um olhar revelasse o que eles foram antes.
É como se a mentira se perdesse em um sorriso. Então, sempre que preciso, eles
desviavam o olhar e eu ficava falando com um rosto próximo, porém distante.
O rapaz ao meu lado se virou e
iniciou uma conversa amistosa. Eu não sabia se correspondia ou se me calava. O
fato é que aquele homem naquele momento me intrigava. Iniciei um jogo perigoso
de buscar seu olhar por trás das lentes escuras, mas não tive êxito. O rosto
dele era só contemplação.
Ele parecia não perder um
movimento, um gesto, um mexer de dedos ou mãos. Ele notava o tremer da minha
voz. Ficava estreito demais o espaço entre nós.
Ele me falava de seu passado e eu
me perguntava: Como será ser amada por alguém que não me vê? Como seria o
relacionamento sem a visão? O mundo possui tanta contradição. Parei de pensar e
me perdi na voz rouca e no sorriso discreto.
Dessa vez era eu quem me sentia
constrangida em olhá-lo enquanto ele não me via. Parecia injusto desfrutar da
beleza que seu rosto oferecia e não dar nada em troca. Até que ele me falou que
era artista, músico, poeta, compositor. Enquanto eu não era nada do que costumo
dizer que sou.
Tudo estava tranquilo. Ele
falava, eu ouvia. Ele perguntava, eu respondia. Ele brincava com a bengala, eu
percebia. Ele silenciava, eu tremia...
O primeiro silêncio durou alguns
segundos interminavelmente cruéis. Tentei olhá-lo à furto, mas o simples
movimento me fez encostar em seu ombro. Estremeci. Não entendi o porquê, mas
aquele estranho me fez compreender que ele enxergava tudo ao redor. Que ele há
muito tempo caminhava só. Que ele conversava com estranhos sem tremer. Que ele
sabia tirar proveito da vida. Eu então pude entender.
Durante todo esse tempo, a
enganada fui eu. Julguei-me amante de música, mas nenhum instrumento sequer
aprendi a tocar. Sou uma escritora cansativa que ainda fala de amor. Durante
todo esse tempo, não fui capaz de enxergar. Eu sempre fui cega para os olhares
desviados por puro pudor. Sempre fui cega e não via os homens que me declaravam
sem temer. Os meus olhos enxergavam ou não era capazes de ver?
Sempre fui cega e não notei que
aquele jovem que me acompanhava até à minha casa era mais que um amigo, era
apaixonado por mim. Sempre fui cega e não enxerguei a felicidade tão perto
assim. Esse jovem dos olhos ocultos, finalmente me fez entender. Não era
coragem de se matar; eu sempre tive foi medo de viver. Não era inteligência,
eram horas de leituras intermináveis. Não foi abandono, foi aceitação.
O jovem de olhos ocultos continuava
em silêncio, mas dentro de mim algo se rompia. Lembrei-me que chorei enquanto
você dormia. Lembrei-me que fiquei por horas a te esperar, mas quando você
finalmente veio, eu o mandei partir. Lembrei-me que eu nunca soube ao certo o
que fazer com você aqui. Seduzir é fácil, basta pouca roupa, uns olhares,
alguns sorrisos e as palavras certas. Difícil é sentir o amor como fogo dentro
de si. É muito fácil seduzir, Difícil é saber o que fazer depois que vence o
jogo afinal.
Esse jovem misterioso de olhos
ocultos e de passado tão claro me fez perceber que eu sempre falei de amor, mas
nunca senti verdadeiramente. Nunca sangrei, nunca matei, nunca chorei até
cansar. Loucura também é uma forma digna de amar.
O silêncio é destruído com uma
palavra que se perde no além onde todas as outras vão morar. Ele fica perdido e
elogia o som da minha voz. Esse elogio diminui ainda mais a distância entre
nós. Eu quero correr e chorar até que não restem mais lágrimas. Quero dizer que
eu nunca superei a sua morte porque por muitas vezes eu preferi não estar por
perto. Eu queria correr e me jogar nas areias de um deserto. Queria sorrir
feito uma louca até um oásis encontrar. A vida é difícil quando alguém te
elogia sem saber o quanto você necessita.
Eu agradeci automaticamente e
automaticamente percebi que estávamos chegando. Virei-me de súbito e o
contemplei. Era minha última chance passando. O mundo poderia desabar debaixo
dos meus pés cansados. Ele não compreendeu porque eu era um ser humano tão
calado. Eu não o contei sobre o turbilhão de ideias que permeavam meu
pensamento. Vivemos aquele momento e para ele talvez tenha sido parte de um dia
comum, mas para mim foi mais...
Esse moço sugou o meu mais
sombrio pensamento. Esse moço me fez viajar em segundos e eu me perdi no espaço
e no tempo. Ainda sentia seu ombro quente de encontro ao meu. Ainda lembrava de
tudo o que me aconteceu. Eu era tão pequena quando ele entrou em meu quarto e
tocou em mim. As manchas ainda borram minhas mais doces lembranças infantis. Eu
o amaldiçoei e agora estou colhendo os frutos da sua imensa infelicidade. Eu
não me sinto plena nem vingada, apenas vivo.
O jovem dos cabelos claros possuía um perfume
inebriante. Talvez tenha sido isso que me conduziu ao que eu era antes. Uma
menina solitária e séria que se sentia realizada com os elogios dos
professores. Uma menina sozinha e nunca amada por ser feia demais. Uma menina
inteligente o suficiente para conhecer o seu lugar. Uma menina que renunciou o
direito de sonhar.
Moço dos óculos negros, se eu te
dissesse quem sou, será que teria medo de mim? Se eu te contasse que já
caminhei até o fundo do quintal com uma faca para me matar, será que duvidaria?
Se eu te contasse que sonho com
precipícios, será que me chamaria de maluca? Se eu te dissesse que muitos acham
que sou astuta, mas eu não compreendo nada do que sou... Se eu te dissesse que
sonho de branco caminhando como Jesus. Se eu te dissesse que tenho medo dos
momentos sem luz. Se te dissesse que enquanto eu afundo, alguém sempre me
salva. Se eu te fizesse uma ressalva e contasse que sempre amei meu vizinho sem
sequer dizer um oi. Se eu dissesse que muitos medos me destroem, será que ainda
me olharia com encanto e beleza?
Domingo, o pastor disse que a
natureza humana é repleta de maldade e eu juro que me identifiquei. Domingo, eu
chorei porque a música me levou para um lugar cheio de luz e escuridão. Eu
chorei porque ninguém segurava a minha mão. Eu me sentei porque tive medo de
cair. Eu O vi e Ele me abraçou enquanto eu pedia perdão. Eu senti o toque suave
e forte de suas mãos sobre meus ombros e nesse momento a leveza tomou conta de
mim. Fazia tempo que não me sentia assim...
Jovem que caminha pelas sombras,
por favor, não desça do ônibus sem se despedir...
Ele me esperou e eu sorri como se
ele fosse capaz de notar. Ele segurou minha mão e se inclinou para me beijar.
Eu fiquei estática, não sabia como reagir. Deixei que seu beijo inocente
pousasse no rosto dessa pecadora sem salvação. Tive medo que ele também
soltasse a minha mão, mas ele soltou e sorriu de um jeito encantador. Havia amor
ou era eu que estava vendo demais? Pedi para conduzi-lo, mas ele disse que estava
acostumado com esse lugar. Ele não compreendeu que quem precisava ser guiada
era eu. Ele não compreendeu que a cega sempre foi essa que não conseguia ver
além. Ele desconhece a paz que seu sorriso tem. Ele se despediu e eu limpei uma
lágrima estranha que de repente começou a cair. Quando me virei para perguntar
seu nome, ninguém mais estava ali.
Luciana Braga