6.29.2016

PARA O JOVEM QUE ILUMINOU A MINHA ESCURIDÃO


Eu o vi assim que entrei naquele ônibus. Cabelo claro, pele alva, óculos escuros, lábios rosados. Nas mãos uma bengala que me fez concluir de imediato que era cego. Eu me sentei ao seu lado e o fato de ele não ter um celular em suas mãos ou de não estar se perdendo entre as paisagens da janela me deixou insegura.
Eu não estava sozinha; então ignorava aquela presença estranha ao meu lado e conversava animadamente com minha aluna, mas ela desceu e eu fiquei sozinha com aquele rapaz quieto e observador.
Eu sempre reclamei da incapacidade dos homens em me olhar nos olhos. É como se eles tivessem medo de serem pegues em flagrante. É como se um olhar revelasse o que eles foram antes. É como se a mentira se perdesse em um sorriso. Então, sempre que preciso, eles desviavam o olhar e eu ficava falando com um rosto próximo, porém distante.
O rapaz ao meu lado se virou e iniciou uma conversa amistosa. Eu não sabia se correspondia ou se me calava. O fato é que aquele homem naquele momento me intrigava. Iniciei um jogo perigoso de buscar seu olhar por trás das lentes escuras, mas não tive êxito. O rosto dele era só contemplação.
Ele parecia não perder um movimento, um gesto, um mexer de dedos ou mãos. Ele notava o tremer da minha voz. Ficava estreito demais o espaço entre nós.
Ele me falava de seu passado e eu me perguntava: Como será ser amada por alguém que não me vê? Como seria o relacionamento sem a visão? O mundo possui tanta contradição. Parei de pensar e me perdi na voz rouca e no sorriso discreto.
Dessa vez era eu quem me sentia constrangida em olhá-lo enquanto ele não me via. Parecia injusto desfrutar da beleza que seu rosto oferecia e não dar nada em troca. Até que ele me falou que era artista, músico, poeta, compositor. Enquanto eu não era nada do que costumo dizer que sou.
Tudo estava tranquilo. Ele falava, eu ouvia. Ele perguntava, eu respondia. Ele brincava com a bengala, eu percebia. Ele silenciava, eu tremia...
O primeiro silêncio durou alguns segundos interminavelmente cruéis. Tentei olhá-lo à furto, mas o simples movimento me fez encostar em seu ombro. Estremeci. Não entendi o porquê, mas aquele estranho me fez compreender que ele enxergava tudo ao redor. Que ele há muito tempo caminhava só. Que ele conversava com estranhos sem tremer. Que ele sabia tirar proveito da vida. Eu então pude entender.
Durante todo esse tempo, a enganada fui eu. Julguei-me amante de música, mas nenhum instrumento sequer aprendi a tocar. Sou uma escritora cansativa que ainda fala de amor. Durante todo esse tempo, não fui capaz de enxergar. Eu sempre fui cega para os olhares desviados por puro pudor. Sempre fui cega e não via os homens que me declaravam sem temer. Os meus olhos enxergavam ou não era capazes de ver?
Sempre fui cega e não notei que aquele jovem que me acompanhava até à minha casa era mais que um amigo, era apaixonado por mim. Sempre fui cega e não enxerguei a felicidade tão perto assim. Esse jovem dos olhos ocultos, finalmente me fez entender. Não era coragem de se matar; eu sempre tive foi medo de viver. Não era inteligência, eram horas de leituras intermináveis. Não foi abandono, foi aceitação.
O jovem de olhos ocultos continuava em silêncio, mas dentro de mim algo se rompia. Lembrei-me que chorei enquanto você dormia. Lembrei-me que fiquei por horas a te esperar, mas quando você finalmente veio, eu o mandei partir. Lembrei-me que eu nunca soube ao certo o que fazer com você aqui. Seduzir é fácil, basta pouca roupa, uns olhares, alguns sorrisos e as palavras certas. Difícil é sentir o amor como fogo dentro de si. É muito fácil seduzir, Difícil é saber o que fazer depois que vence o jogo afinal.
Esse jovem misterioso de olhos ocultos e de passado tão claro me fez perceber que eu sempre falei de amor, mas nunca senti verdadeiramente. Nunca sangrei, nunca matei, nunca chorei até cansar. Loucura também é uma forma digna de amar.
O silêncio é destruído com uma palavra que se perde no além onde todas as outras vão morar. Ele fica perdido e elogia o som da minha voz. Esse elogio diminui ainda mais a distância entre nós. Eu quero correr e chorar até que não restem mais lágrimas. Quero dizer que eu nunca superei a sua morte porque por muitas vezes eu preferi não estar por perto. Eu queria correr e me jogar nas areias de um deserto. Queria sorrir feito uma louca até um oásis encontrar. A vida é difícil quando alguém te elogia sem saber o quanto você necessita.
Eu agradeci automaticamente e automaticamente percebi que estávamos chegando. Virei-me de súbito e o contemplei. Era minha última chance passando. O mundo poderia desabar debaixo dos meus pés cansados. Ele não compreendeu porque eu era um ser humano tão calado. Eu não o contei sobre o turbilhão de ideias que permeavam meu pensamento. Vivemos aquele momento e para ele talvez tenha sido parte de um dia comum, mas para mim foi mais...
Esse moço sugou o meu mais sombrio pensamento. Esse moço me fez viajar em segundos e eu me perdi no espaço e no tempo. Ainda sentia seu ombro quente de encontro ao meu. Ainda lembrava de tudo o que me aconteceu. Eu era tão pequena quando ele entrou em meu quarto e tocou em mim. As manchas ainda borram minhas mais doces lembranças infantis. Eu o amaldiçoei e agora estou colhendo os frutos da sua imensa infelicidade. Eu não me sinto plena nem vingada, apenas vivo.
 O jovem dos cabelos claros possuía um perfume inebriante. Talvez tenha sido isso que me conduziu ao que eu era antes. Uma menina solitária e séria que se sentia realizada com os elogios dos professores. Uma menina sozinha e nunca amada por ser feia demais. Uma menina inteligente o suficiente para conhecer o seu lugar. Uma menina que renunciou o direito de sonhar.
Moço dos óculos negros, se eu te dissesse quem sou, será que teria medo de mim? Se eu te contasse que já caminhei até o fundo do quintal com uma faca para me matar, será que duvidaria?  Se eu te contasse que sonho com precipícios, será que me chamaria de maluca? Se eu te dissesse que muitos acham que sou astuta, mas eu não compreendo nada do que sou... Se eu te dissesse que sonho de branco caminhando como Jesus. Se eu te dissesse que tenho medo dos momentos sem luz. Se te dissesse que enquanto eu afundo, alguém sempre me salva. Se eu te fizesse uma ressalva e contasse que sempre amei meu vizinho sem sequer dizer um oi. Se eu dissesse que muitos medos me destroem, será que ainda me olharia com encanto e beleza?
Domingo, o pastor disse que a natureza humana é repleta de maldade e eu juro que me identifiquei. Domingo, eu chorei porque a música me levou para um lugar cheio de luz e escuridão. Eu chorei porque ninguém segurava a minha mão. Eu me sentei porque tive medo de cair. Eu O vi e Ele me abraçou enquanto eu pedia perdão. Eu senti o toque suave e forte de suas mãos sobre meus ombros e nesse momento a leveza tomou conta de mim. Fazia tempo que não me sentia assim...
Jovem que caminha pelas sombras, por favor, não desça do ônibus sem se despedir...
Ele me esperou e eu sorri como se ele fosse capaz de notar. Ele segurou minha mão e se inclinou para me beijar. Eu fiquei estática, não sabia como reagir. Deixei que seu beijo inocente pousasse no rosto dessa pecadora sem salvação. Tive medo que ele também soltasse a minha mão, mas ele soltou e sorriu de um jeito encantador. Havia amor ou era eu que estava vendo demais? Pedi para conduzi-lo, mas ele disse que estava acostumado com esse lugar. Ele não compreendeu que quem precisava ser guiada era eu. Ele não compreendeu que a cega sempre foi essa que não conseguia ver além. Ele desconhece a paz que seu sorriso tem. Ele se despediu e eu limpei uma lágrima estranha que de repente começou a cair. Quando me virei para perguntar seu nome, ninguém mais estava ali.

Luciana Braga


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