Eles apareceram de repente. Como chegaram
tão perto, nunca descobrirei. Ela se jogou sobre mim com tanto ódio no rosto
que estremeci. Ela puxou meus cabelos como se eu fosse uma criatura digna de
toda a crueldade humana. Ela bateu em meu rosto. Quantas vezes? Eu nem percebi.
Quando dei por mim, meu rosto estava ardendo feito labaredas de vergonha. Ela
arrancava minhas bolsas como se ela fosse uma mulher das cavernas e eu tivesse
a caça em meus braços. Ela estava faminta e eu estava lá. Então, ele me olhou e
eu comecei a gritar.
Meu grito saiu forte. Senti como
se ele fosse alcançar o céu e Deus em sua imensa generosidade enviaria seus
anjos armados para me defender, mas ele observou tudo do alto. Ele observou
quanto o homem mandou que ela arrancasse também os meus óculos. Ele observou
quando eu clamei por misericórdia e ambos em cima da moto me atiraram ameaças.
“Corre ou eu jogo essa moto em
cima de você!” Eu não corri. Meus pés não obedeceram. Eu queria ter corrido o
mais rápido que minhas pernas aguentassem. Eu queria ter corrido até
arrebentar-me em alguma parede imaginária. Eu queria ter corrido até não
lembrar mais. No entanto, eu apenas coloquei minhas mãos no rosto e esperei.
Esperei que ele jogasse a moto
sobre meu corpo. Esperei que ele sacasse alguma arma e fizesse meu sangue
espirrar. Eu esperei que ele fosse capaz de me matar. Eu senti medo e mesmo
assim esperei, mas eles foram embora.
Foram embora e me deixaram ali
sozinha, tremendo, chorando, sofrendo, tão incapaz... Foram embora com um livro
que nunca lerão. Foram embora com um óculos que não melhorará a imagem deles no
espelho. Foram embora com meu sorriso e meu desejo de mostrar que tudo ainda
está bem.
Ainda sinto suas mãos de encontro
ao meu rosto. A vergonha é maior que a dor. A dor é doce companheira. A vergonha
é algo maior. Eu lavei meus cabelos três vezes, mas ainda sinto os puxões e
sinto ânsia em saber que aquelas mãos sujas de maldade tocaram em mim.
Tenho medo de dormir e sonhar com
tudo outra vez. Tenho medo de confrontar-me com meu próprio eu transtornado.
Tenho medo de sair de casa sozinha e encontrá-los na rua ao lado. Penso que se
ouvir um barulho de moto outra vez, sairei correndo como um esquizofrênico
sentindo-se perseguido. Eles levaram tão pouco e, ao mesmo tempo, deixaram-me
tão vazia.
Queria saber, Deus, o que será
que eu fiz. Por que estou sendo tão punida e, mesmo assim, ainda clamo por
estar viva. Queria saber por que quanto mais eu me aproximo de ti, mais eu sofro.
Se tu és amor, porque os mantém vivos e saltitantes enquanto eu choro sozinha
no meu quarto escuro? Eu sei todas as possíveis respostas, mesmo assim eu me
dou esse direito de questionar. Será pedir muito, apenas um instante para
sonhar?
As palavras grudam no papel como
tatuagem. Elas vêm assim desconexas enquanto eu me derramo em lágrimas. Alguns
dirão que exagero, mas eu não me importarei. Só eu sei o que vi em seus olhos.
Ela me agredia e eu recuava, pensando apenas: “O que eu fiz para ela me odiar
tanto assim?” Ele apenas observava, esperando para dar o veredito que fez meu
corpo estremecer. “Corre ou jogo essa moto em cima de você!”. Seria uma ameaça
real ou apenas parte de um plano sórdido para me humilhar?
Enquanto minhas mãos tremiam e a
estrada parecia grande demais, eu cheguei ao meu lar e não consegui gritar. Eu
bati com tanta força no portão. Naquele momento acelerou meu coração e eu senti
a adrenalina tomando conta de mim. Eu queria ter sido capaz de bater neles
tanto assim. Queria ter visto o corpo de ambos estendidos no chão. É pecado, eu
sei e por isso me desespero. Mas eles estão rindo enquanto eu penso em mil maneiras
de me refazer. O mundo é difícil para quem tenta viver sem machucar o próximo.
Sei que devo pedir a Deus que tenha misericórdia da alma deles e descansar em
paz, mas eu não consigo.
Talvez eu não seja tão boa quanto
sempre pensei. Talvez os monstros que viviam dentro de mim tenham resolvido
tomar forma de gente. Talvez. Talvez.
Luciana Braga