8.31.2016

PESADELO



Eles apareceram de repente. Como chegaram tão perto, nunca descobrirei. Ela se jogou sobre mim com tanto ódio no rosto que estremeci. Ela puxou meus cabelos como se eu fosse uma criatura digna de toda a crueldade humana. Ela bateu em meu rosto. Quantas vezes? Eu nem percebi. Quando dei por mim, meu rosto estava ardendo feito labaredas de vergonha. Ela arrancava minhas bolsas como se ela fosse uma mulher das cavernas e eu tivesse a caça em meus braços. Ela estava faminta e eu estava lá. Então, ele me olhou e eu comecei a gritar.
Meu grito saiu forte. Senti como se ele fosse alcançar o céu e Deus em sua imensa generosidade enviaria seus anjos armados para me defender, mas ele observou tudo do alto. Ele observou quanto o homem mandou que ela arrancasse também os meus óculos. Ele observou quando eu clamei por misericórdia e ambos em cima da moto me atiraram ameaças.
“Corre ou eu jogo essa moto em cima de você!” Eu não corri. Meus pés não obedeceram. Eu queria ter corrido o mais rápido que minhas pernas aguentassem. Eu queria ter corrido até arrebentar-me em alguma parede imaginária. Eu queria ter corrido até não lembrar mais. No entanto, eu apenas coloquei minhas mãos no rosto e esperei.
Esperei que ele jogasse a moto sobre meu corpo. Esperei que ele sacasse alguma arma e fizesse meu sangue espirrar. Eu esperei que ele fosse capaz de me matar. Eu senti medo e mesmo assim esperei, mas eles foram embora.
Foram embora e me deixaram ali sozinha, tremendo, chorando, sofrendo, tão incapaz... Foram embora com um livro que nunca lerão. Foram embora com um óculos que não melhorará a imagem deles no espelho. Foram embora com meu sorriso e meu desejo de mostrar que tudo ainda está bem.
Ainda sinto suas mãos de encontro ao meu rosto. A vergonha é maior que a dor. A dor é doce companheira. A vergonha é algo maior. Eu lavei meus cabelos três vezes, mas ainda sinto os puxões e sinto ânsia em saber que aquelas mãos sujas de maldade tocaram em mim.
Tenho medo de dormir e sonhar com tudo outra vez. Tenho medo de confrontar-me com meu próprio eu transtornado. Tenho medo de sair de casa sozinha e encontrá-los na rua ao lado. Penso que se ouvir um barulho de moto outra vez, sairei correndo como um esquizofrênico sentindo-se perseguido. Eles levaram tão pouco e, ao mesmo tempo, deixaram-me tão vazia.
Queria saber, Deus, o que será que eu fiz. Por que estou sendo tão punida e, mesmo assim, ainda clamo por estar viva. Queria saber por que quanto mais eu me aproximo de ti, mais eu sofro. Se tu és amor, porque os mantém vivos e saltitantes enquanto eu choro sozinha no meu quarto escuro? Eu sei todas as possíveis respostas, mesmo assim eu me dou esse direito de questionar. Será pedir muito, apenas um instante para sonhar?
As palavras grudam no papel como tatuagem. Elas vêm assim desconexas enquanto eu me derramo em lágrimas. Alguns dirão que exagero, mas eu não me importarei. Só eu sei o que vi em seus olhos. Ela me agredia e eu recuava, pensando apenas: “O que eu fiz para ela me odiar tanto assim?” Ele apenas observava, esperando para dar o veredito que fez meu corpo estremecer. “Corre ou jogo essa moto em cima de você!”. Seria uma ameaça real ou apenas parte de um plano sórdido para me humilhar?
Enquanto minhas mãos tremiam e a estrada parecia grande demais, eu cheguei ao meu lar e não consegui gritar. Eu bati com tanta força no portão. Naquele momento acelerou meu coração e eu senti a adrenalina tomando conta de mim. Eu queria ter sido capaz de bater neles tanto assim. Queria ter visto o corpo de ambos estendidos no chão. É pecado, eu sei e por isso me desespero. Mas eles estão rindo enquanto eu penso em mil maneiras de me refazer. O mundo é difícil para quem tenta viver sem machucar o próximo. Sei que devo pedir a Deus que tenha misericórdia da alma deles e descansar em paz, mas eu não consigo.
Talvez eu não seja tão boa quanto sempre pensei. Talvez os monstros que viviam dentro de mim tenham resolvido tomar forma de gente. Talvez. Talvez.

                                                                                                                   Luciana Braga
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