2.01.2014

SUTILMENTE






Ela se aproximou lentamente de mim. Eu estava chorando sem emitir nenhum som. Como ela percebeu? Ela não falou nada, apenas sentou-se ao meu lado e segurou a minha mão. Existe palavra mais confortante que o silêncio acolhedor? Existe gesto mais sublime do que um abraço inesperado?
Ela olhou-me com olhos repletos de dúvidas.  Será que eu entenderia o gesto seguinte? Ela deve ter se questionado. Será que eu compreenderia que não existe necessariamente um lado e uma maneira de amar? Será que eu me sentiria perdida se ela começasse a me beijar?
Ela não o fez. Melhor assim. Ficamos com a dúvida do ato não consumado. Melhor assim, pois eu não saberia o que dizer depois do feito. Eu não saberia qual o momento perfeito para dizer que nem ela me entenderia e me aceitaria com todos os meus questionamentos enlouquecedores. Ela não entenderia que só conheço amadores na arte de sofrer, visto que eu sou uma profissional.
Ela amou-me enquanto eu chorava. Ela confessou que desde sempre me amava. Ela me prendeu com o seu olhar. Eu quis fugir. Eu quis gritar, mas preferi colar os meus lábios bem junto aos seus ouvidos e dizer baixinho: Não se culpe, o amor é mesmo assim. Ele vem sem ser chamado e transforma toda a pureza em pecado. Não se preocupe, eu a entendo perfeitamente. Não se culpe, há tempos eu me perdi de mim mesma. Então, como poderia começar a amar?
Ela não respondeu nada. Pior assim, eu queria escutar. Ela nada proferiu. E eu fiquei com a dúvida cravada no peito, feito adaga que fere ferozmente. Ela tinha o poder de ler a minha mente. Passou longos e tortuosos minutos, apenas me observando, enquanto eu me perdia em milhões de questionamentos sem nada confessar.
Ela não iria deixar de me amar. Ela não iria desistir assim tão fácil. Roubar um beijo é melhor que ganhá-lo? Roubar é mais prazeroso ou dura rápido demais para descobrirmos o gosto que tem? Ela não roubou. Ficou sem saber.
Antes de se afastar, ela disse: Amanhã, eu irei te visitar e te direi novamente o que repito todos os dias sem nada dizer... Minha querida, não importa o que você diga ou faça... Eu nunca vou te esquecer.

                                                                                                                         Luciana Braga
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