10.14.2012

ALÉM DA PELE






Fui correndo até o fundo do quintal daquela velha casa, tão velha quanto as esperanças de um grande amor. Uma amiga me disse que estava com leucemia e me pediu que fosse ao hospital doar sangue. O que ela não sabia era que eu não posso doar sangue, não quero, não tenho, não... Sangue é vida e esta às vezes me é tão rara.
Hoje também descobri que o responsável pelas minhas noites mal dormidas, vigílias na rua ao lado, poemas sem nexo e com muito amor... Amor? Será que eu sei o que é isso? Será que ele sabe? Será que alguém já o ensinou? Amor se ensina? Não sei, não sei...
O que eu sei é que eu corri para o fundo do quintal. Aproveitei a ausência de todos. Levei comigo a faca grande de minha mãe e pensei em um plano simples e ao mesmo tempo patético: iria tirar a minha vida dessa existência caótica e triste. Por quê? Ela é tão linda, alguns diriam... Inteligente, educada... Terá um futuro promissor... Ora! Eles não me conhecem, não conhecem minhas entranhas, não sabem que eu conheci o abismo da solidão e da falta de amor... Não sabem que meu pai virou as costas para mim e deixou minha mãe sozinha com esse fardo.
A faca brilhava e o sol também. Por que não chovia? Seria mais fácil? Não sei. Só sei que fazia muito sol e eu vi o meu rosto refletido na faca que deveria cortar a minha alva pele. Eu vi o medo em meu rosto, a fraqueza, a dúvida, a covardia... Não, eu não consegui me matar.
Os cristãos diriam que Cristo enviou um anjo para me salvar, e eles estariam certos. Mas, eu não vi o anjo... Eu vi meu próprio rosto refletido e isso me apavora.
Serei meu próprio anjo? A única capaz de lutar contra meu eu fracassado sou eu mesma refletida. Sou duas, dupla, vida e morte, azar e sorte, sorriso e pranto.
Sou aquilo que ninguém vê, sou um abismo profundo de interrogações, sou conflitos, amor, nunca recebido sempre sofrido, sou a fonte de muitos conhecimentos, ajudo a todos e poucos me ajudam, ouço a todos e ninguém nunca me ouve, eu grito e meu grito rompe o céu, mas ninguém presta atenção. Eles só vêem o meu sorriso, o meu desejo de mostrar que está tudo bem, eles não me conhecem além da pele.
                                                                                                                                 
                                                                                                                               Luciana Braga
Luci
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