Dessa vez, você não precisou me
pedir uma carta. Esta eu faço com o contentamento de quem encontra uma pessoa
extraordinária no vagão de um trem. Dessa vez, eu escrevo com a sensação de que
estou me desprendendo do meu corpo triste e solitário e estou vivendo um grande
amor. Escrevo como se estivesse pronunciando a mais bela declaração que já se
viu. Escrevo como se a ponte estivesse próxima a mim, mas ainda restasse um
pouco de receio de pular. Escrevo como quem descobriu o que é amar. Escrevo
como quem tem a certeza de que vai chorar depois que você partir.
Talvez esse não seja apenas o
relato de um filme, mas pedaços da minha vida. Talvez eu me arrependa de tudo e
delete ao final. Talvez eu revele nessa carta algumas histórias sobre as
feridas que sangram nesse momento ou talvez eu jogue todas essas lembranças
pela janela e deixe que elas sejam levadas pelo vento.
A vida é tão incerta e, ao mesmo
tempo, tão fugaz. Às vezes, uma pessoa não faz ideia de o quanto é capaz de
mudar a sua vida com uma simples decisão. Então, imagine que esse é um daqueles
momentos em que você para e pensa em todas aquelas pessoas “maravilhosas” que
passaram por sua vida e se pergunta: e se eu tivesse feito diferente?
Bom, é melhor terminar com as
minhas divagações e ressaltar o que realmente importa: o filme “Antes do
Amanhecer”. Aliás, reconheço que você merece mesmo um presente, mas não será
uma quantia em dinheiro, visto que você é contra o Capitalismo, nem tampouco
uma passagem para o exterior, pois não seria louca de afastá-lo de mim, justo
quando estamos nos entendendo tão bem.
Eu resumiria esse filme com uma
expressão “carpe diem”. É isso que eles fazem, Jesse e Celine resolvem
aproveitar o curto tempo que é possível para estarem juntos. Resolver sair sem
destino, arriscar, conhecer e se encantar. Engraçado é que em nenhum momento,
eles resolvem se apaixonar, mas o amor surge mesmo assim.
Isso porque o amor não é como uma
viagem com destino certo. O amor surge exatamente quando paramos de olhar pela
janela e começamos a enxergar quem está do nosso lado e bem perto. O amor surge
de repente e não há nenhum culpado. Ele vive nos livros, nos filmes ou no
brilho de um olhar, basta prestar atenção. O amor está presente quando Jesse e
Celine resolvem dar as mãos.
É curioso quando ela diz que no
final, o casal meio que é programado naturalmente para que não haja comunicação
alguma. Eu, por minha vez, creio que seria bem diferente. Quando se ama, a
gente corre riscos. A gente aumenta o tom de voz. A gente também diminui se incomodar.
Quando se ama, muda-se a rota, se assim precisar.
O filme é genial por causa das
discussões filosóficas travadas entre o casal. É apaixonante por causa dos
olhares que gritam mesmo em silêncio. É divertido por causa do jeito
descontraído do Jesse e inteligente por causa de Celine. O filme ultrapassa os
limites da perfeição. E ainda me deixou uma canção: “Come Here”, da Kath Bloom.
Aliás, a cena em que eles estão
ouvindo essa música é de uma delicadeza indescritível. A música fala de não ter pressa, de ter fé no
amor e de se aproximar... Afinal, é assim que começamos a perigosamente nos
apaixonar.
Além de tudo o que já foi dito,
recordo que eles são tão diferentes e tão iguais. O fato é que eles se
completam como o sol que brilha no mar ao amanhecer. Esse filme ficará guardado
na memória, assim como você.
Luciana Braga