2.19.2014

A CAIXINHA DE MÚSICA





Lembro-me como se estivesse acontecendo agora, nesse instante, dentro de mim. O coração acelerado; as inúmeras vezes em que me contemplei ao espelho. Esperá-lo era mais que um ritual sagrado. Era a esperança de que ele iria descobrir o amor dentro dos meus olhos escuros.
Sempre quis ter olhos azuis como o oceano em que eu me perco, mas Deus não quis assim. E tenho que aceitar o que há de melhor e pior em mim.
Ele chegou e provavelmente se demorou um pouco à porta. Soube disso, porque o vira da janela, mas ele não me viu.
Quando bateu palmas, foi como se elas estivessem dentro de mim apertando o meu peito cada vez que as mãos se juntavam para formar o conhecido som.
O embrulho chegou antes dele. Era vermelho o laço de fita, assim como a sua face antes de saber se eu havia gostado ou não do presente.
- Que gracioso, meu querido, uma caixinha de música!
Hoje, ele se foi, mas ainda consigo sentir a sua presença. O seu porte altivo que tanto me deslumbrava ainda se repete em todos os que eu vejo na rua. Quando acaricio o cabelo de uma criança delicada, fecho os olhos e sinto o seu cabelo negro e liso passando pelos meus dedos. Meu querido, os seus olhos que me prendiam e me prende. Eu não quero me soltar, ainda não... Não posso!
E seus lábios vermelhos como morango maduro. Nenhuma boca me seduz agora, meu querido! E suas mãos a me tocar... Seus braços sempre prontos para me abraçar... Eu não esqueci.
Você morreu, mas o som da caixinha de música chegou ao fim? Não. Da mesma forma, você não deixou de existir dentro de mim.

Luciana Braga
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